Os robots vieram equilibrar o sistema?

Quando se fala em robotização, fala-se quase sempre de substituição. A ideia surge carregada de medo: menos pessoas, mais máquinas, menos trabalho, menos humanidade.

Mas a realidade que tenho encontrado ao conversar com empresários da indústria é mais complexa. Em muitos casos, a robotização não está a substituir pessoas, está a substituir tarefas que o ser humano já não quer fazer ou que não consegue fazer com eficiência dentro do modelo atual de produção.

Talvez os robots não tenham vindo desequilibrar o sistema, mas equilibrá-lo.

O problema invisível da circularidade têxtil.

Uma das áreas mais críticas da economia circular é a triagem e preparação para reciclagem. Antes de uma peça poder ser reciclada, precisa de ser identificada, separada, limpa e desmontada. Fechos, botões, etiquetas, elastano, misturas complexas — tudo o que torna uma peça interessante no momento da compra pode comprometer o processo de valorização no fim de vida.

Mas há um problema anterior ao técnico: a reciclagem têxtil não escala porque a desintegração tem um custo real. Cada hora de trabalho manual de preparação é um custo operacional. E quando esse custo é demasiado elevado, as peças não seguem para valorização. A circularidade não falha apenas por falta de tecnologia de reciclagem. Falha porque o caminho até à reciclagem é demasiado caro para existir à escala necessária. É aqui que a robotização pode ser decisiva: não como substituto das pessoas, mas como infraestrutura que torna viável aquilo que hoje é economicamente insuportável.

O que vi nas fábricas?

É comum vermos empresas de vestuário com o corte automatizado (máquina Mind). Já vi também algumas operações de costura feitas por robots, sempre com o auxílio do operador, é comum vermos robots que circularam pelo chão de fábrica para transportar pequenos objetos. O que tem crescido mais, tem sido a robotização dos armazéns de matérias primas. Melhora os processos, mitiga as perdas, mas nada disso substitui pessoas.

Mas pela primeira vez, vi numa empresa, três robots de estampagem substituíram o trabalho direto de três pessoas. À primeira vista, parece asustador. Mas as pessoas não foram dispensadas, foram realocadas. O investimento foi recuperado em cerca de um ano. E, quando perguntei às equipas como tinham reagido, a resposta surpreendeu-me: tinham gostado. Porque o robot trouxe previsibilidade. Ele não se cansa, não faz pausas, não tira férias, não fica doente e pode trabalhar 24h sem perdas de rentabilidade.

"A máquina cria bom ambiente", disseram-me.

Noutro momento, perguntei porque determinada zona ainda não tinha sido robotizada. A resposta foi direta: porque duas pessoas conseguiam tratar trinta peças por dia, enquanto a máquina disponível tratava cinco. E noutra operação, a resposta foi diferente: "porque é preciso um manuseamento muito delicado e o robot ainda não consegue."

Há funções repetitivas, fisicamente exigentes e psicologicamente pobres que continuam a existir porque alguém tem de as fazer. Se um robot pode assumir esse tipo de tarefa, talvez a pergunta não deva ser apenas "quantos postos de trabalho substitui?", mas também "que tipo de trabalho deixa de ser imposto às pessoas?" Pela primeira vez sinto que o ser humano estará a desempenhar as suas funções de maior valor acrescentado.

Aquilo que nos robots aparece como eficiência, não descansar, não adoecer, não parar, corresponde, nos humanos, a princípios básicos de dignidade. As pausas, as férias, a proteção da saúde não são defeitos do trabalho humano. São precisamente o que nos torna humanos.

Mas há uma segunda dimensão, menos discutida: o nosso modelo social está ligado ao trabalho contributivo. Os robots não descontam para a Segurança Social, não pagam impostos, não sustentam o contrato coletivo. Ler artigo.

Se a produtividade migra do trabalho humano para o capital tecnológico, o sistema fiscal e de proteção social terá de acompanhar essa transformação, não para travar a tecnologia, mas para garantir que o valor gerado pela automação não fica concentrado apenas em quem detém as máquinas.

Bom trabalho,

Joana

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