A sustentabilidade está em rutura ou a escalar?
A moda sustentável está a atravessar uma rutura. A Stella McCartney fez parceria com a H&M e a Everlane foi comprada pela Shein.
Durante anos vimos a Stella e a Everlane de um lado e a H&M e Shein do outro. Há dois lados claros. O lado do slow fashion (marcas sustentáveis, pequenas, transparentes, éticas, lentas), e o lado o fast e ultra fast fashion (os grandes grupos, associados a volume, velocidade, preço baixo e pressão sobre a cadeia). Mas os acontecimentos recentes mostram que essa divisão está a desfazer-se. Por isso pergunto: quem tem poder para mudar o sistema?
No evento da semana passada, uma empresa de confeção referiu que o grupo Inditex tem exigências superiores às novas regras da União Europeia. Isto é importante, porque mostra que a transformação não vem apenas da lei. A legislação define o mínimo comum. Mas os grandes clientes, o volume pode criar novos padrões de consumo.
Talvez seja isso que a colaboração da Stella McCartney com a H&M esteja a fazer. Segundo a própria H&M, a coleção Stella McCartney x H&M 2026 foi pensada com materiais certificados e responsáveis, muitos deles reciclados, e recupera códigos do percurso da designer olhando para o futuro. A Stella McCartney sempre representou uma visão de moda com consciência ambiental, alternativas ao couro e à pele animal, inovação material e desejo estético. Ao colaborar com a H&M, o que está ela a fazer? a levar essa linguagem para uma plataforma de massas.
Olhemos agora para a marca Everlane. Construiu o seu portfolio e reputação em cima da “Transparência Radical” com básicos duráveis e consumo mais consciente. A Shein em contrapartida representa o extremo oposto: ultra-fast fashion. Com preço baixo, velocidade, dados e produção em escala. A aquisição foi confirmada em maio de 2026; a Reuters noticiou que a Shein adquiriu a Everlane num negócio que a valorizava em cerca de 100 milhões de dólares, mantendo a marca como operação independente.
A Stella McCartney e a Everlane trairam a sustentabilidade?
Pode parecer contradição, mas a verdade é que a sustentabilidade tem de escalar. É sempre isso que escutamos, é caro porque não tem escala. É caro porque há mais investimento. É caro porque é preciso que o consumidor compre. O cliente quer um produto sustentável, mas não quer pagar mais. Há dois lados da mesma moeda, podemos ver que sim, eu como consumidora sinto-me traída. Ou podemos ver, o outro lado, estas colaborações podem muda alguma coisa no sistema?
Se a moda sustentável foi mais atraente e acessível, então estamos a mudar o sistema.
A compra da Everlane pela Shein é simbólica porque junta dois mundos que pareciam incompatíveis. Mas talvez seja precisamente esse o ponto: a sustentabilidade deixou de viver fora do sistema; está agora a ser disputada dentro dele.
Tenho vindo a defender a teoria de que “as ZARAs podem salvar o mundo.” Ler artigo aqui.
As pequenas marcas mostram caminhos; as grandes marcas mudam comportamentos.
A sustentabilidade precisa de ESCALA. Mas o slow fashion não é o oposto?
O impacto ambiental da moda não vem apenas de más escolhas individuais, mas de sistemas globais de produção, distribuição, preço, desejo e descarte. Logo, a solução não pode depender apenas de consumidores conscientes e marcas de nicho. É preciso que a sustentabilidade entre onde o consumo já acontece:
nas lojas onde as pessoas compram,
nos preços que conseguem pagar,
nos canais que usam,
nos hábitos que já têm,
nas cadeias de fornecimento que produzem em massa.
Quero por isso acreditar que a escala deixa de acelerar apenas problemas e pode começar a acelerar soluções.
Joana