Inteligência Artificial e a quebra do Desenvolvimento Cerebral na Criança
Hoje escrevo como mãe e como professora. Estou tremendamente preocupada como o uso da Inteligência Artificial. Vivemos um momento que me lembra o aparecimento do telemóvel. Quando surgiu foi uma excitação e não estávamos a entender os perigos do vício e do auto-controlo. Temo que o uso da Inteligência Artifical vá pelo mesmo caminho, porque falta regulação.
A Inteligência Humana
Vi um vídeo inocente nas redes sociais, de uma menina de (7/8 anos) que usava o Chat GPT para fazer pesquisas. Ela indica que pede textos para a escola. Este pedido inocente e rápido, faz-nos quebrar algo fundamental ao ser humana: o TEMPO, a FISICALIDADE e por consequência a INTELIGÊNCIA.
Não saber esperar faz-nos quebrar algo em desenvolvimento - A inteligência HUMANA. O cérebro de um adolescente desenvolve-se até aos 21 anos. Quando não trabalhamos o cérebro não cria as sinápses que constroem a lógica, o questionamento e que moldam a nossa inteligência.
Aprendi com o Gabriel Salomão (Do Lar Montessori) que a criança não brinca, ela trabalha. E existem 3 transformações essenciais que trazem benefícios com base no esforço espontâneo. A Inteligência, a Alegria e a Colaboração.
A Inteligência é o que permite cria pontes, estabelece relações entre uma ideia e outra ideia. No livro “A inteligência emocional e a lógica da consciência”, o neurociêntista António Damasio explica que a consciência não é imaterial, forma-se de forma física. A natureza física dos processos são essenciais para a consciência.
A inteligência artificial por sua vez é gerada por 0s e 1s. Ela é imaterial e por isso anula a fisicalidade da aprendizagem, quebrando o ato de fazer que permite construir sinapses cerebrais.
Nós adultos, quando cozinhamos e alguma coisa falha (algo queima, fica salgado). No ato de cozinhar, precisamos de encontrar soluções. Este exercício vai-nos trazer habilidades para outras áreas da nossa vida. O mesmo acontece quando relacionamos problemas, ganhamos novas competências, porque estabelecemos novas relações.
Quando a criança é apenas “passiva” na ação, ela fica privada de construir essas relações. Quando ela vê televisão ou pede uma pergunta ao Chat GPT ela é “testemunha” do mundo. Quando a criança faz coisas, “ganha” super poderes, ou seja, ganha inteligência. Por isso as crianças, os adolescentes ou os adultos que fazem coisas, tornam-se mais competentes, porque experimentaram.
Questionar será o maior feito do ser humano.
Este ano fiz o curso de “Pensamento crítico” de José Maria Pimentel. Não poderia ter surgido em melhor altura. Hoje percebo que este curso, será certamente uma disciplina do futuro, nas escolas e nas universidades. Neste curso falamos muito sobre viéses cognitivos.
Se as notícias estão sempre a falar sobre os hospitais, temos de sensação que os hospitais estão caóticos. Se as notícias falam de violência constantemente, temos a percepção de que está a aumentar a violência no nosso país. Mesmo que tenhamos dados que contrariam estas ideias, é a “Sensação” que fica. Este viés negativo sobre as notícias por norma tocam em 2 temas centrais da nossa vida: a Saúde e a Segurança. A cobertura mediática enviesada acontece especialmente em temas que afetam aspectos fundamentais da nossa vida, e porquê? Por causa do Viés da disponibilidade: julgamos a frequência de eventos pela facilidade com que nos lembramos deles.
Os jornais dependem financeiramente da publicidade, por isso insistem em notícias clickbait, acabando por promover em maior quantidade notícias más, em prol das boas, moldando o nosso pensamento.
Se nas notícias há vieses, as redes sociais amplificam tudo isto e a inteligência artificial vai entregar pela quantidade, ao analisar padrões em grandes volumes de dados. É aqui que termina o nosso discernimento. A inteligência artificial dá-nos a resposta que queremos ouvir e na pior das hipóteses inventa uma resposta.
Existe Viés de Dados (A Fonte Mais Comum). O Viés de Amostra/Seleção: Ocorre quando o conjunto de dados de treino não é suficientemente diverso ou representativo da população alvo. O Viés da Confirmação, pode ocorrer se os designers do algoritmo, consciente ou inconscientemente, priorizarem características ou métricas que validam as suas próprias crenças pré-existentes.
Como podemos combater isto? Procurar ativamente perspectivas contrárias de fontes seguras. Por isso é tão importante obter vários pontos de vista. O google pode-nos entregar vários links e nós vamos podemos comparar. A Inteligência Artificial não faz isso, entrega uma única resposta. E pode considerar a resposta verdadeira, mesmo que sobre o mesmo tema, possa existir vários pontos de vista.
A REALIDADE é diferente da PERCEPÇÃO
Nunca foi tão importante adotar a estratégia de um jornalista. Qual é a fonte? Temos 2 ou 3 entidades diferentes credíveis que comprovam isto?
Há 5 estratégias para nos informarmos melhor neste novo mundo:
Evitar consumir apenas as notícias do momento;
Ignorar headline e nunca comentar e partilhar antes ler/ver tudo;
Analisar fontes: É fidedigna? Qual é a agenda? (usar fact-checkers);
Triangular e diversificar fontes;
Perguntar: "Que emoções me gera esta notícia?"
A Calma, a Colaboração e o Desenvolvimento Cerebral na Criança
Com a IA o processo colaborativo pode e vai diminuir. No entanto, Gabriel Salomão, destaca a importância da colaboração como essencial para o regulamento do estado emocional da criança. Quando uma criança está calma, a sua capacidade de concentração aumenta significativamente. Uma criança serena não só colabora melhor com os outros, como a sua insistência em atividades que fomentam a independência (como completar uma tarefa sozinha) resulta no desenvolvimento de novas e importantes funções cerebrais.
Executar tarefas / Trabalhar permite o fortalecimento das Funções Executivas, fundamentais para a auto-regulação das crianças. As Funções Executivas são habilidades mentais cruciais que se desenvolvem no córtex pré-frontal e são a base da autorregulação e da aprendizagem. Começam pela Memória de Trabalho, que é a capacidade de reter e manipular informações a curto prazo. Na prática, manifesta-se quando a criança consegue lembrar-se do passo a passo de uma receita ou de uma sequência de instruções complexas. A Concentração ou Atenção Sustentada, é a habilidade de manter o foco e ignorar distrações. Um exemplo claro é conseguir terminar um puzzle ou uma tarefa mesmo com barulho e distrações no ambiente. Esta função sustenta a atenção, essencial para a aprendizagem, e ajuda a reduzir a impulsividade.
Outra função vital é a capacidade de Fazer Escolhas e tomar decisões conscientes, o que implica avaliar opções e prever consequências. Por exemplo, a criança decide jogar à bola antes ou depois do lanche, ponderando o tempo e a energia. Isto conduz a mais autonomia e à capacidade de tomar decisões conscientes e responsáveis.
O Autocontrole ou Controlo Inibitório é fundamental para a vida social. É a capacidade de inibir respostas impulsivas ou de adiar uma gratificação. Vemos isso quando a criança espera pela sua vez para falar numa conversa ou resiste à vontade de pegar num objeto proibido. O resultado é uma melhor convivência social e o cumprimento eficaz de regras.
Finalmente, a capacidade de lidar com Regras e Exceções, também conhecida como Flexibilidade Cognitiva, é a habilidade de mudar o modo de pensar consoante as exigências da situação. Por exemplo, compreender que a tesoura grande pode ser usada apenas com a supervisão de um adulto, mas que a pequena não precisa. Esta função desenvolve a flexibilidade cognitiva e promove uma obediência inteligente, que compreende o "porquê" da regra. As cinco Funções Executivas trabalham em conjunto, dotando a criança das ferramentas necessárias para planear, focar e adaptar-se ao mundo.
Pensamento Crítico
O Pensamento Critico é algo que pode ser trabalhado desde pequeno, no entanto, para desenvolver um espirito crítico, é fundamental entendermos os argumentos, identificar as premissas (porque/pois/uma vez que…) e as consequências.
Se as crianças deixam de ser ativas e passam a ser passivas, é impossível construirem um pensamento com uma estrutura lógica e transparente, pois a criança deixa de usar as técnicas das perguntas incisivas que permitem: clarificar, validar factos ou explorar pressupostos. Uma análise critica exige compreender, avaliar o contexto e de alguma forma tirar uma conclusão.
Nós como pais, estamos a permitir que os nossos filhos deixem de ser pessoas pensantes. Porque perdemos a habilidade de questionar.
O psiquiatra Daniel Sampaio neste poscast mostra-se particulamente preocupado com o uso da Inteligência Artificial em casa. “Os trabalhos de casa agora são feitos sem qualquer espírito crítico, prejudicando a intuição, porque o professor passa um trabalho, eles vão ao chat GPT e tiram de lá a resposta.” .
Um cérebro em desenvolvimento, tem de aprender a fazer perguntas para criar espirito crítico. Um cérebro na adolescência está-se a desenvolver, sobretudo o córtex pré frontal, a zona do cérebro que tem a ver com o planeamento e tem a ver com o controlo das emoções. O psiquiatra conclui que o perigo desta prática, especialmente para o cérebro de um adolescente é a perda de qualidades essenciais para o conhecimento: Espírito crítico, Espontaneidade e Intuição.
Como pais e professores, vamos proibir uma ferramenta de pesquisa? Confesso que não sei a solução!? Não é sobre proibir. É sobre ensinar a usar.
Fica a reflexão,
Joana