Inteligência Artificial na Moda, estamos a Poupar ou a Gastar mais água?

Esta semana deparei-me com o desabado de uma aluna. “O uso de Inteligência artificial pode aparentemente ser positivo, mas ele traz consigo muito consumo de água, não será contraditório uma marca de moda usar esta tecnologia e continuar a afirmar-se sustentável?

O último relatório do "The State of Fashion 2026" aborda o uso da Inteligência Artificial (IA) para a geração de imagens como uma aplicação chave para a indústria, com um impacto direto na redução de custos e no tempo de produção. Há oportunidades, mas também há muitos riscos, vamos conhecê-los.

As oportunidades da IA na Moda

A Inteligência Artificial na moda está muito associada à:

  • A Criação de produto digital em Clo 3D ou Browzwear, servem para fazer prototipagem em 3D, o produto é criado e renderizado. Estes softwares usam a inteligência artificial pontualmente (nesta fase). O clo 3D é um software instalado localmente no pc, ou seja estamos a trabalhar num software não depende de datacenters massivos. Este produto digital, o chamado Digital Twin, pode substituir a amostra real, poupando recursos ambientais. As amostras digitais permitem reduzir a necessidade de desenvolver a amostra físicas poupando muitos recursos. Há empresas que reduziram 25% / 30% das amostras com esta mudança, o que signica que poupamos recursos como água e energia. Relembro a leitura deste artigo.

  • A Criação de imagem geradas com ferramentas de Inteligência Artificial como a Fermat ou a Refabric são totalmente geradas com uso de IA. O refabric é um modelo de IA hospedado em data centers, e que têm um custo de consumos de energia e água diferentes.

  • A IA é muito comum também na gestão de inventário e análise de tendências: A Zara usa algoritmos de machine learning para analisar dados de vendas e comportamento do cliente, prevendo quais produtos terão maior demanda para otimizar o stock e criar coleções mais rapidas.

  • A Redução de custos e tempo de produção é real. No report do BoF indica que a Zalando reduziu o tempo de produção de 6–8 semanas para 3–4 dias.

  • Um dos grandes desafios é a criação de conteúdo editorial (Look Book ou Pack Shots) fundamentais aos negócios de ecommerce, trazendo grandes benefícios para produtos difíceis de fotografar. A automação é mais transformadora em funções rotineiras, como serviço ao cliente online, gestão de inventário e criação de imagens. A Zalando, por exemplo, reduziu os custos de produção de imagens em 90% com IA generativa.

  • A IA foi expandida para aplicações como a criação de conteúdo para campanhas em redes sociais e merchandising em lojas. 

  • Experiência do Cliente: A Zara utiliza IA em algumas funcionalidades do seu site para melhorar a experiência do usuário e chatbots para atendimento ao cliente.

  • A Inteligência Artificial veio para ficar. Cerca de 23% dos consumidores globais já usam a IA generativa como ponto de partida para as suas compras. Eu própria já fui contactada porque uma IA recomendou os meus serviços. A forma de pesquisar mudou.

Entender o Data Center de Sines.

Portugal vai receber um dos maiores investimentos da Microsoft na Europa, no início de 2026. O Investimento será feito no data center em Sines. E porquê Sines? porque fica ao lado do mar. Muitos data centers utilizam a água fria do mar (ou de sistemas de água doce próximos) para resfriar os seus sistemas.

Segundo o Público, “por cada pergunta no ChatGPT, há servidores, algures no mundo, que analisam a informação que têm, recolhem o que interessa, de acordo com algoritmos, e dão uma resposta estruturada. É um processo que custa energia, 10 X mais do que uma simples busca no GoogleEste consumo está a pôr Portugal neste mercado em crescimento, trazendo para a discussão os argumentos da eficiência energética e da sustentabilidade que se podem encontrar no país.”

Segundo um artigo da ACM, Association for Computing Machinery, “A inteligência artificial (IA) tem possibilitado avanços notáveis em diversas áreas de importância crucial, por outro lado, muitos modelos de IA, especialmente os grandes modelos generativos como o GPT-4, são treinados e implementados em servidores que consomem muita energia. Como resultado, a pegada de carbono da IA tem sido objeto de escrutínio, impulsionando o recente progresso na eficiência de carbono da IA. No entanto, a pegada hídrica da IA — muitos milhões de litros de água doce consumidos para resfriar os servidores e para a geração de eletricidade — tem permanecido amplamente despercebida e continua a aumentar. Se não for adequadamente abordada, a pegada hídrica da IA pode se tornar um grande obstáculo para a sustentabilidade e criar conflitos sociais, já que os recursos de água doce adequados para uso humano são extremamente limitados e distribuídos de forma desigual. O consumo total anual de água no local por data centers nos EUA em 2028 poderá duplicar ou mesmo quadruplicar o nível de 2023, atingindo aproximadamente 150-280 bilhões de litros e pressionando ainda mais as infraestruturas hídricas. ” Ver vídeo.

Quais são os desafios do IA na moda?

  1. Desafio ambiental: Estudos recentes sugerem que um único prompt de geração de imagem pode consumir indiretamente entre 2 a 4 litros de água. A Inteligência Artificial é inevitável, mas o impacto ambiental do ponto de vista de energia, como de pegada hídrica é enorme.

  1. Desafio Ético: A proteção dos dados é um tema central, de onde vêm as imagens que estamos a usar? Quem as produziu? quando estamos a usar fontes abertas, a origem nem sempre é clara.

  2. Desafio da Força de Trabalho: Algumas funções existentes tornar-se-ão mais centradas na IA, permitindo que os colaboradores se dediquem a tarefas criativas e analíticas de maior valor. A IA deve estar dentro de portas até porque temos de alimentar a nossa inteligência artificial.

  3. Desafio Criativo: A IA faz-nos poupar muito dinheiro e recursos, por outro lado, a dependência da IA, pode-nos fazer menos criativos (ou não)! O IA pode-nos ajudar a expandir a criatividade, como explicou o Pedro Caride da PorVocação num evento da ModaPortugal. O diretor criativo usou o IA para projetar um museu e esse foi o ponto de partida para os arquitectos do espaço. Em contrapartida, se olharmos para o Pinterest a uniformização acaba por ser assustadora. Está tudo a ficar igual. É isso que queremos? Será que nos estamos a tornar menos criativos? Há muitos trabalhos que vão terminar e é necessário realocar estas pessoas.

  4. A falta de pensamento crítico: é para mim um dos pontos mais críticos. Os trabalhos feitos sem espírito crítico podem prejudicar a intuição humana. Desenvolver o espírito crítico e relacioná-lo com a experiência real, permite criar sinapse mentais sendo esta a zona do cérebro responsável pelo planeamento e controlo das emoções.

A maioria das vezes a IA é vista como uma mais valia e que aumenta a eficiência, no entanto há questão éticas e ambientais fundamentais que devem ser pensadas. É fundamental questionar e ensinar a usar. É preciso criar um equilíbrio.

Boas Vendas,

Joana

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